Quando o dia for difícil!

E aí Sossegad@s, tudo bem?

Outro dia fui comprar ingredientes em um mercado novo que abriu por aqui e que possui itens muito bacanas de hortifruti e algumas opções de orgânicos. Lugar organizado e pequeno, com preço competitivo e atendimento simpático. Não era um dia leve, com um sol lindo brilhando e com tudo dando certo. Era um dia pesado, denso, cheio de problemas. Daqueles dias difíceis mesmo, em que você tem vontade de abandonar tudo e voltar pro ventre. Aquele dia punk, meio que pós ressaca, quando você recém se recupera de um tombo e já leva um “chocolate” do time adversário – e até eu que não gosto nadica de futebol, sei que isso é humilhante pacas. Era um dia mais ou menos como essa música do Morrissey, que eu adoro mas é “deprê” pra caramba!

Fui pedalando meio amortecida na bike que está com a correia “cantando”, precisando de graxa. O trajeto da cozinha até o local não leva mais que dez minutos, e fui meio que engolindo o choro e me esforçando para chegar lá com uma boa energia em mãos, afinal por pior que seja seu dia, redundar no problema não resolve. Chorar não resolve. Lamentar não resolve. Desesperar-se não resolve. Respirei e respirei de novo. Pro fun da men te. Desci da bike, encostei-a no muro e a tranquei com o cadeado. Entrei no estabelecimento mais leve. Saquei a lista da caderneta e fui escolher os itens, repetindo baixinho para não dispersar e não esquecer nada: ‘Berinjelas finas para a caponata, maiores para o hambúrguer. Tomate cereja para o confit, tomate italiano para o sanduíche. Preços bons. Cogumelos frescos, morangos para a geleia.’ (…)

Com o pensamento focado, fui desconcentrada por um cheiro doce, que me levou para longe. Lá para a minha infância.

Em segundos, senti-me “teleportada” para o quintal da casa de madeira, branca e marrom que lembrava um chalé. Rua Joaquim Silveira da Motta, no bairro Guabirotuba em Curitiba / PR. Final da década de 80, um quintal grande onde o mato crescia alto e por onde eu gostava de correr e dizer que lá era “minha floresta”. Onde jaziam dois morrinhos de terra dura que eu gostava de escalar; na verdade eram dois grandes ninhos de cupins – que no verão ficavam branquinhos, cobertos pelos insetos que criavam asas. Na parte dos fundos, meus pais fizeram uma pequena horta e no quintal do vizinho havia um pé de maracujá doce, que dobrava o muro e desabrochava em nossa casa. Nele sempre pairavam zangões e abelhas quando florescia…. Aquele perfume, aquelas cores …. Minutos depois, percebi que havia fechado os olhos, pois quando os abri, estava de volta ao mercadinho alisando um maracujá doce, cheirando e “namorando” a fruta – cara que era o diabo (acho que ninguém percebeu… espero que não!). Escolhi uma bem bonita e coloquei na cesta, e aquele gesto bobo me acalmou de uma forma tão gostosa, me abraçou de um jeito tão protetor, que não teve mais tempo ruim: voltei para a cozinha inundada de um sentimento que não tem nome, tanto que nem ouvi mais o reclame da correia.

Depois de terminadas minhas atividades e aquele perfume invadindo minha cozinha, abri a fruta e comi de colher. Me dei esse presente. Sorvi cada sabor como se redescobrisse a lua e tudo que me vinha a mente eram só coisas boas, sensação de relaxamento e sentimento de “venci na vida hoje, mãe!“. Em meus devaneios infantis, lembro que para mim, não tinha discussão: aquela era a fruta mais gostosa do universo e a flor a mais linda de todas as lindas.

E vejam se não é um primor?
Fonte da imagem: https://www.youtube.com/watch?v=dbVcxtgaEeQ

Depois de tanto divagar, vale explicar: para quem não conhece, esse maracujá é mais alongado que o maracujá amarelo (aquele azedinho, de fazer suco), e é originário aqui da América do Sul, muito encontrado “nativamente” no Brasil. Hoje somos os maiores produtores da fruta, segundo o site da Esalq/USP, que ganhou mercado em detrimento do amarelo por ser mais resistente a pragas, ser doce (porque né, de azedo já bastam os embustes da vida), ter mais propriedades calmantes (nome científico “Passiflora atala Curtis” – pra quê Passiflorine, señiores?) e possuir um preço mais elevado (e bota elevado nisso GÉSUIS, $7,80 golpinhos o quilograma da delícia é de arriar os quatro pneus da kombi! ).  Com relação ao cultivo, caso não queiramos mais pagar essa fortuna toda, uma funcionária do mercadinho disse que “ele pega fácil, é só plantar as sementes“.

Por hora é isso gente, abraço grande e até breve! Um ótimo fim de semana para tod@s e força na peruca!

Priscila Dal Bosco (Ofélia)

P.S.: Eu era uma criança muito calma, compenetrada e abstraía fácil brincando sozinha. Acabo de descobrir o motivo: altas doses de passiflora natural do pé de maracujá do vizinho!