Design + gastronomia: conversas que se cruzam na história da humanidade!

Boa noite Sossegados, tudo bem?

Comecei a escrever este post ano passado, e só agora (8 meses depois) consegui dar um rumo interessante para ele (sim, mea culpa, assumo!), e acreditem, foi procurando um bom assunto para dar “pano pra manga” na prosa, que comecei a refletir sobre minha profissão “oficial” e as relações que poderia fazer dela com a gastronomia, ou ainda, pensar sobre como poderia tirar um bom proveito de tudo o que aprendi durante esses anos todos.
São 14 anos de atuação na área de design de mobiliário, e naturalmente meus olhos e minhas reflexões apontam sempre para um comparativo entre esses dois universos distintos que tanto tem em comum.

Seguindo por essa lógica, a primeira observação que ressalto é o curioso fato de que não raramente encontro pessoas do meio profissional do design, alguns até colegas de formação que anteriormente mal sabiam fritar um ovo, atuando como chefs de cozinha,  cozinheiros ou empreendedores do setor gastronômico / alimentício. Isso me leva a crer que há sim uma possível relação íntima e um fundamento para isso, podendo estreitar esse laço abordando  os artefatos, mais especificamente – os UTENSÍLIOS que nos servem dentro da cozinha.
O Termo “design” e seu executor, o “designer” podem ser recentes e vocês podem até não saber o nome do inventor das coisas que utilizamos ao preparar nossa comida, mas em sua gênese, são todos criados por DESIGNERS.
–  tá, nem todos tem formação específica em design, outros nem tem formação alguma, mas deixarei essa outra discussão para outro momento, ok?

Divagando um pouco no tempo, lembro que no meu primeiro ano de faculdade, lá pelos idos de 2000, tive um professor chamado Marcelo Stein que lecionava Metodologia Científica, e é a ele que devo  dedicar grande parte do desenvolvimento do meu senso crítico – ao mestre com carinho. Apesar da função da disciplina, o referido professor não gostava de discorrer sobre normatizações e formatações ad infinitum e creio que se ateve mais a nos instigar a pensar por nós mesmos. Uma de suas tentativas foi nos apresentar o texto “O que é design“, publicado originalmente em Yves Zimmermann (1998) por Gustavo Gili, Barcelona. O texto em questão, traduzido do espanhol carinhosamente pelo próprio professor, fazia  uma crítica aos objetos midiatizados intitulados “objetos de design”, porque segundo o autor, ao tornarem-se irreconhecíveis em sua forma para seu uso, esses objetos não funcionavam como deveriam, custavam mais caro e eram glamourizados. A meu ver – ponto de vista em que concordo plenamente com o autor – se um determinado objeto não pode ser reconhecido em sua forma para seu uso, ele perde o sentido de ser, ou seja, se uma faca – que serve para cortar, fatiar, desossar ou qualquer outra atividade que se atribua a uma faca – não puder ser identificada como uma faca, ela deixará de ser uma faca.

       Ainda tenho esse texto guardado, há 15 anos, com todas as anotações e rabiscos que fiz durante a aula!

E o que é afinal o “design”, esse termo sofisticado que povoa nosso vocabulário de maneira mais intensa desde o final dos anos 80 e que se popularizou na década de 90? Sem muita profundidade, posso dizer que design em tradução direta do inglês é simplesmente desenho, porém, “(…) a palavra latina desígnio contém a palavra inglesa design.” (GILI, 1998), e é nesse contexto que o caldo engrossa, com o auxílio de um simples roux: desígnio, segundo o nosso dicionário, é um substantivo masculino que significa “Vontade de desenvolver alguma coisa; que demonstra intenção; propósito (…)”.

Compliquei né? Então deixa ver se consigo ser mais clara: Esse mesmo autor (o Gili), aborda o caráter do significado de um objeto, o seu “sinal”. Os signos, a grosso modo,  são ícones que ficam gravados lá no nosso subconsciente indicando para que servem as coisas: Você identifica de imediato por exemplo o que é uma colher, o que é um garfo, o que é uma faca, o que é uma panela, independente do apreço estético da peça. E esses “signos” vão se renovando através dos tempos e vão agregando novos ícones a nossa vasta biblioteca mental, e é por isso que a medida em que você se informa, estuda, absorve informações e as transforma em conhecimento, seu arquivo de signos se expande: quanto mais você se interar sobre cutelaria, por exemplo, mais tipos de facas você passa a conhecer e a reconhecer  – e uma faca para cortar legumes jamais será usada, a partir de então, para servir a mesa. Vejam o que ele declara a seguir:

E, na medida em que o “sinal ” é o signo do objeto, este, ao assinalar-se, gera significado para um espectador, se faz inteligível para ele. O “sinal” é o essencial da coisa, é o que diz a palavra alemã Gestalt: a figura básica do que é percebido por um olhar, isso cujo ser-assim não depende de atributos secundários (textura, cor, etc) para ser reconhecido como o que é.

(GILI, Gustavo. Barcelona, 1998)

E por falar em facas, vou tomar essas “estrelas” dos utensílios de cozinha para divagar um pouco nesse papo culinário-gastronômico, afinal a proposta do Blog não é somente trocar receitas ou dar dicas, mas também falar sobre essa relação “ser humano-artefato-cozinha” com uma boa dose de reflexão, pois sempre defendo que cozinhar é revolucionário, libertador, prazeroso e saudável. Acredito que conhecendo mais a fundo o conjunto do universo que envolve o simples ato de cozinhar, todos nós desenvolveremos uma estrutura de cultura alimentar que envolve respeito e consciência quanto ao consumo de alimentos e demais produtos que os envolvem!

Ficou claro? Então vejam só essa seleção de imagens de facas que captei da Internet para melhor compreensão do que foi mencionado acima:

facass
 Nossa biblioteca de “signos” permite que reconheçamos todos os itens como “facas”, independente de sua função específica. 1) faca de caça; 2) faca de aço damasco e não sei a função! 3) Faca Chef – serve para tudo e mais um pouco; 4) faca “bizarra” que lembra uma faca de desossa; 5) facas de lâmina colorida ou   cerâmica, baratas e que em geral não duram muito; 6) faca santoku para cortes de legumes ou cortes delicados e precisos 7) faca tipo “adaga”; 8) faca tipo cutelo – para cortes pesados e ossos.

Só para fechar e encerrar o post, que será o primeiro de uma série de alguns textos trabalhados e formatados com carinho, digo de antemão que vocês poderão encontrar no mercado inúmeras marcas de facas, das mais simples e descartáveis às mais caras e sofisticadas, além de inúmeras funções, porém, alerto por experiência própria e respaldada na experiência de alguns colegas do ramo, que duas ou três facas são suficientes para quase todas as atividades que vocês irão desenvolver na cozinha. Portanto, é melhor fazer uma escolha bem pensada que um investimento alto em um produto que ficará enfeitando sua gaveta, ou ainda, comprar vários modelos de procedência duvidosa e sem nenhuma qualidade que serão descartadas em menos de trinta dias! O design está aí para nos provar isso, seja para um lado ou para o outro seja bom ou ruim, afinal não há somente BONS produtos projetados com design, e sim um projeto de design para atender a cada tipo de produto com determinada função, inclusive a de ser descartável!

Então, é isso! Espero que vocês tenham gostado da divagação e que acompanhem os próximos posts  desta série que envolverão temas sobre design, artefatos, cutelaria, culinária e gastronomia!

Abraço grande!

Glossário:

  • Roux é uma base para engrossar molhos, feita a partir de farinha e manteiga, basicamente.
  • Cutelaria é a arte de se fabricar facas e demais instrumentos cortantes e vamos falar muito disso nas próximas postagens!

P.S.:

Ah, em tempo, e com um efeito “delay” de três meses devido ao meu hiato criativo: 

Feliz 2016 aos amigos, familiares, conhecidos e a todos que estiveram ao nosso lado – ou não, por todo o ano de 2015. Fechou -se um ciclo, um longo, pesado, as vezes doloroso, muitas vezes alegre e feliz ciclo da vida, onde nem tudo é linha reta … Essa sempre é sinuosa, montanha russa, mar revolto, tempestade de verão, vento minuano cortando a pele no inverno… É viração, que baixa a temperatura repentina e leva junto a pressão arterial. E falando de mim, quem conhece sabe: Nunca gostei do lado fácil e assertivo da história… Meu negócio é o caminho mais espinhento e cabuloso. Haja fé, haja luta!!! E na labuta diária vamos levando com garra, com bom humor, com temperança, com sapiência e também com um pouco de loucura.
Que Deus nos guie e nos salve da rotina, da mesmice e da falta de amor, e que nos proteja, da maneira que for possível, seja como for.
Que esse ano seja de recomeços, de realizações e de perspectivas a todos, que cada passo dado seja sempre um passo à frente e não um recuo, e que as portas da felicidade se abram a todos… É clichê, mas em janeiro iniciamos com 366 – sim porque esse ano é bissexto – oportunidades de fazer diferente, mais e melhor que antes!
Obrigada a todos que cruzam e cruzaram nosso caminho, vocês foram espetaculares!

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